Marco Antônio de Morais Alcantara
O mundo da construção civil apresenta hoje muitas nuancias para os casos de produção de concreto, desde os casos de produção através de centrais de concreto com equipamentos sofisticados e técnicos especializados, como também o concreto pode ser virado na obra por operários com a capacitação diversa, utilizando-se também de equipamentos que podem variar desde a enxadas à misturadores com diversas capacidades e sofisticação. Este texto se refere ao evento de extensão universitária realizado em 14 de junho de 2025, na Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira da UNESP.
Nos dias atuais a cadeia produtiva tem funcionado de modo a
que se adote dois procedimentos: a fabricação do concreto no canteiro de obras,
ou a compra de concreto usinado produzido em central de concreto.
(i)
O primeiro dos fatores está relacionado com os
atendimentos de desempenho requeridos para o concreto nos estados frescos e
endurecidos.
(ii)
O segundo fator está relacionado com os recentes
problemas de escassez de mão de obra, visto que, o ciclo de formação de
profissionais na obra tem sido influenciado pela migração de mão de obra para
outros setores da sociedade.
(iii)
Ainda se pode considerar os aspectos de custo e
de sustentabilidade, onde, a otimização dos materiais permite evitar
desperdícios, sobras indesejáveis, e também, alcançar a melhor qualidade da
obra, em temos de retração e fissuramento.
No sentido das observações feitas, cabe considerar os
parâmetros de dosagem do concreto. Normalmente a fabricação de concreto em
obras é feita de modo empírico, com ajustes de modo a se alcançar as condições
de trabalhabilidade, porém o operador não tem o controle deste processo, senão
através do conhecimento dos parâmetros de dosagem do concreto.
O primeiro deles diz respeito às condições de resistência
mecânica e durabilidade. As condições favoráveis são no sentido inverso da
relação água/cimento. Um valor menor para a relação água/cimento proporcionará
um concreto com menos vazio internos, e com maior cimentação; por outro lado,
um aumento da relação água/cimento poderá implicar em um concreto com um número
maior de poros, e capilares que permitirão a passagem da água e fluidos,
comprometendo a durabilidade. Dentro das obras correntes as contingências
permitem que o valor da ralação água/cimento seja em valores mais baixos da
ordem de 0,45, não devendo este valor ultrapassar 0,5, visto que, a partir
deste valor, as condições de permeabilidade se alteram em condições
exponenciais, comprometendo a durabilidade do concreto.
Estes valores são tabelados através de ábacos e tabelas,
conforme os materiais locais e conforme os meios de produção.
Uma vez determinados estes parâmetros, uma condição de igualdade é alcançada da seguinte forma:
x = (H%)(1+m)/100
H(%) = relação água-materiais secos totais
m= relação agregados total/cimento.
O valor da relação agregado/cimento é importante porque ela
define o aspecto de custos, pois o custo dos agregados é normalmente menor do
que o custo do cimento, e não somente isso, o consumo de cimento quando
excessivo pode implicar em efeitos colaterais, como o aumento do calor de
hidratação e da fissuração. O aumento do cimento com relação ao agregado não
implica no aumento da resistência, pois esta depende da relação água-cimento.
Foi realizada uma experiência prática na oficina na
FEIS-UNESP, com base nos parâmetros de dosagem que foram propostos, e da
proposta dos materiais.
Foi utilizado o cimento CP II Z, em razão de o mesmo ser o mais encontrado no comércio de Ilha Solteira. Utilizou-se de agregado graúdo britado, com diâmetro máximo dado por 19 mm. Utilizou-se de areia natural, além da água procedente do abastecimento de Ilha Solteira.
Como parâmetros de dosagem adotou-se a relação água materiais secos dada por 9(%), em razão de se utilizar materiais britados. Como valores de “m”, escolheu-se m=4 e m=5, mantendo-se o mesmo valor para a relação água/materiais secos, e, como consequência, os valores da relação água/cimento foram estabelecidos em x=0,45 para o caso de m=4, e 0,54 para o caso de m=5.
A Tabela 1 apresenta as composições e os parâmetros de composição para as duas composições.
|
Massa específica aparente (kg/l) |
||||||
|
|
m=4 |
m=5 |
||||
|
CP |
Massa (g) |
Massa (kg) |
Massa específica aparente (Kg/l) |
Massa (g) |
Massa (kg) |
Massa específica aparente (Kg/l) |
|
1 |
3670 |
3,67 |
2,34 |
3670 |
3,67 |
2,34 |
|
2 |
3700 |
3,7 |
2,36 |
3650 |
3,65 |
2,32 |
|
3 |
3650 |
3,65 |
2,32 |
3610 |
3,61 |
2,30 |
|
4 |
3640 |
3,64 |
2,32 |
3640 |
3,64 |
2,32 |
|
5 |
3650 |
3,65 |
2,32 |
3620 |
3,62 |
2,30 |
|
|
|
Valor médio |
2,33 |
|
Valor médio |
2,32 |
|
|
|
Desvio padrão |
0,02 |
|
Desvio padrão |
0,01 |
|
|
|
Coeficiente de variação |
0,01 |
|
Coeficiente de variação |
0,01 |
|
|
|
Coeficiente de variação (%) |
0,81 |
|
Coeficiente de variação (%) |
0,54 |
Foram realizados ensaios no estado fresco, em particular o ensaio do abatimento. Este tem por base avaliar a consistência do concreto com base no abatimento do concreto, a partir do seguinte procedimento: é realizado o preenchimento de um cone metálico padronizado, com as dimensões de 20 x 30 cm, fazendo em 3 camadas superpostas, onde cada uma delas recebe 25 golpes com frequência padronizada com o auxílio de uma barra de aço padronizada. Uma vez terminado o preenchimento, regulariza-se a superfície, razando com uma régua, e então, é feito o soerguimento do cone, lentamente; então o concreto apresentará um abatimento sob a ação do seu peso próprio. Este abatimento tem relação com a consistência do concreto, podendo-se observar tanto concretos rijos, como concretos fluidos.
A Tabela 2 apresenta os valores alcançados no ensaio de
abatimento para os concretos com m=4 e com m=5.
Tabela 2: Resultados dos ensaios de abatimento
|
Resultados dos ensaios de abatimento
(cm) |
||||
|
|
Medidas |
Valores médios |
||
|
m=4 |
8,5 |
9,5 |
7,5 |
8,5 |
|
m=5 |
8,5 |
12 |
13,5 |
11,33 |
De acordo com os resultados apresentados na Tabela 2, as
condições de trabalhabilidade do concreto guardam relação com as condições de
consistência do concreto e com as ações do processo de produção. Concretos
rijos são adensados com vibração enérgica, enquanto que os concretos plásticos
são adensados com vibração moderada, e os concretos fluidos são adensados a
baixos valores de energia.
Uma importância também é dada ao ensaio de abatimento porque
ele avalia a constância de uma composição, assim como dos materiais utilizados.
O ensaio de abatimento deve ser feito somente com concreto
coesivo.
Os concretos apresentando m=5 tiveram valor de abatimento
superior aos dos concretos com m=4, dentro de condições iguais com relação à
água/materiais secos e as proporções entre os agregados miúdos e os agregados
graúdos. Nota-se que com o aumento de “m” para as mesmas condições de H(%) a
quantidade de água necessária para a trabalhabilidade se torna maior, e o valor
da relação água cimento também se torna maior, diminuindo a influência do
cimento como agente de viscosidade.
Os corpos de prova foram moldados em moldes de PVC com
dimensões de 10 cm de diâmetro e 20 cm de altura. Foram adensados por meio de
vibração com o auxílio de mesa vibratória. Estes permaneceram em uma bancada
durante 24 horas, quando então após este período eles eram desformados e
acondicionados em câmara úmida para a cura, aguardando os ensaios de ruptura
aos 28 dias de cura.
Quando se deu o tempo de cura, aos 28 dias de idade, os corpos de prova foram rompidos após 24 horas fora da câmara úmida.
Os corpos de prova foram pesados, com o fim de se avaliar a massa específica aparente.
A Tabela 3 apresenta os valores da massa específica aparente para os casos de m=4 e de m=5.
Tabela 3: Valores da massa específica aparente
|
Massa específica aparente (kg/l) |
||||||
|
|
m=4 |
m=5 |
||||
|
CP |
Massa (g) |
Massa (kg) |
Massa específica aparente (Kg/l) |
Massa (g) |
Massa (kg) |
Massa específica aparente (Kg/l) |
|
1 |
3670 |
3,67 |
2,34 |
3670 |
3,67 |
2,34 |
|
2 |
3700 |
3,7 |
2,36 |
3650 |
3,65 |
2,32 |
|
3 |
3650 |
3,65 |
2,32 |
3610 |
3,61 |
2,30 |
|
4 |
3640 |
3,64 |
2,32 |
3640 |
3,64 |
2,32 |
|
5 |
3650 |
3,65 |
2,32 |
3620 |
3,62 |
2,30 |
|
|
|
Valor médio |
2,33 |
|
Valor médio |
2,32 |
|
|
|
Desvio padrão |
0,02 |
|
Desvio padrão |
0,01 |
|
|
|
Coeficiente de variação |
0,01 |
|
Coeficiente de variação |
0,01 |
|
|
|
Coeficiente de variação (%) |
0,81 |
|
Coeficiente de variação (%) |
0,54 |
Os resultados da Tabela 3 indicam que o processo de produção
apresentou padrões de qualidade satisfatórios, com respeito ao processo de
fabricação. Verifica-se que que os coeficientes de variação se mostraram muito
baixos, dentro do padrão de controle rigoroso.
A Tabela 4 apresenta os valores da resistência mecânica à compressão simples e à tração por meio da resistência à compressão diametral aos 28 dias de cura.
Tabela 4: Valores da resistência mecânica à compressão simples e à tração por meio da resistência à compressão diametral aos 28 dias de cura.
|
Resistência mecânica aos 28 dias de
cura aos 28 dias de cura |
|||||
|
|
Resistência à compressão simples (MPa) |
Resistência à compressão diametral
(MPa) |
|||
|
Valores individuais |
m=4 |
m=5 |
|
m=4 |
m=5 |
|
25,4 |
19,98 |
Valores individuais |
2,51 |
1,88 |
|
|
22,34 |
16,88 |
2,24 |
2,23 |
||
|
24,86 |
18,74 |
Valor médio |
2,37 |
2,05 |
|
|
Valor médio |
24,2 |
18,53 |
Desvio padrão |
0,13 |
0,16 |
|
Desvio padrão |
1,34 |
1,21 |
Coeficiente de variação |
0,05 |
0,08 |
|
Coeficiente de variação |
0,06 |
0,07 |
Coeficiente de variação (%) |
5,45 |
7,98 |
|
Coeficiente de variação (%) |
5,54 |
6,52 |
|
|
|
Com base nas informações da Tabela 4, verifica-se que os
valores individuais e valores médios se mostraram superiores para os casos das
misturas com m-4. A isso se pode considerar que os valores da relação água
cimento se apresentaram inferiores para os casos de m=4, dentro das condições
também propostas para H*%).
Pode-se verificar que os valores da resistência à tração por compressão diametral tendem a variar também em relação inversa com valores da relação água/cimento, e tendem a apresentar correlação com os valores da resistência à compressão simples.
A Tabela 5 apresenta o resultado da relação entre os valores
da resistência à compressão diametral e da resistência à compressão simples.
Tabela 5: Relação entre os valores da resistência à
compressão diametral e da resistência à compressão simples
|
Resistência à compressão diametral / Resistência à compressão simples |
|
|
m=4 |
m=5 |
|
0,10 |
0,11 |
Nota-se que os valores da relação se mostra em valores muito
próximos, indicando a tendência de correlação entre estas duas variáveis. O
valor apresentado para a relação está coerente com os valores apresentados na
literatura, refletindo a condição de fragilidade dos concretos. Sabe-se que os
valores de resistência à tração dos concretos são da ordem de 10 vezes menores
do que os de resistência à compressão.
A Tabela 6, por sua vez, apresenta o resultado da relação
entre os valores da resistência à compressão simples e do módulo de
elasticidade.
Tabela 6: Relação entre os valores do módulo de elasticidade.
|
Módulo de elasticidade (GPa) |
||
|
|
M=4 |
M=5 |
|
|
50,1 |
23,45 |
|
|
|
29,05 |
|
Valor médio |
|
26,25 |
|
Desvio padrão |
|
2,68 |
|
Coeficiente de variação |
|
0,10 |
|
Coeficiente de variação (%) |
|
10,20 |
Analisando os resultados da Tabela 6 se observa que o valor do módulo de elasticidade apresentado para m=4 tem apenas um valor representado, por problemas técnicos de leitura, se mostra muito superior ao que é apresentado para o caso de misturas com m=5. A isto se pode considerar o valor também muito mais elevado para os valores da resistência mecânica, e que, da mesma forma que para os casos da resistência à compressão diametral, os valores do módulo de elasticidade também guardam relação direta com os valores da resistência à tração.
A Tabela 7 apresenta a relação entre os valores da
resistência à compressão axial e do módulo de elasticidade.
Tabela 7: Relação entre os valores da resistência à
compressão axial e do módulo de elasticidade.
|
Resistência à compressão axial/Módulo
de elasticidade |
|
|
m=4 |
m=5 |
|
0,496 |
0,706 |
Dos valores apresentados para a relação entre o valor da
resistência à compressão e o módulo de elasticidade, observa-se que o módulo de
elasticidade cresce mais com o valor da resistência à compressão para o caso de
m=4, do que para o caso de m-5. Isto poderia indicar que os concretos com
valores de m=4 são mais rígidos do que os com m=5. Todavia, a base de dados
utilizada não nos autoriza a atribuir este julgamento, visto que só se tem um
valor do módulo para o caso de m=4.
Então pelo que foi apresentado nesta oficina algumas coisas devem ser consideradas:
A quantidade de cimento a ser utilizada no concreto e a
quantidade de água devem estar atendendo um parâmetro que permita favorecer a
coesão interna e o manuseio do concreto, havendo limites inferiores para o
valor da relação água cimento, geralmente da ordem de 0,45; e a quantidade de
água não deve ser excessiva e modo a enfraquecer o concreto ou provocar a
segregação e a exsudação.
